Dia Mundial do Coração. Prevenir já não é apenas controlar o colesterol e deixar de fumar

    Doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de mortalidade e morbilidade em Portugal.

    No Dia Mundial do Coração, o especialista Carlos Morais alerta para a necessidade de uma prevenção mais abrangente, que tenha em conta não só os fatores de risco tradicionais, mas também o stress, o sono, a poluição, as condições socioeconómicas e os novos hábitos alimentares.

    As doenças cardiovasculares continuam a representar um dos maiores desafios de saúde pública em Portugal. Apesar dos avanços registados nas últimas décadas, que permitiram reduzir em cerca de 20% a mortalidade associada a estas doenças, o problema permanece longe de estar resolvido.

    A avaliação é deixada por Carlos Morais, vice-presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, que sublinha que as doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de mortalidade e morbilidade em Portugal, superando outras causas de morte habitualmente associadas a elevados níveis de mortalidade.

    No Dia Mundial do Coração, o especialista defende que a prevenção precisa de acompanhar a transformação da sociedade. Se durante décadas a mensagem se centrou sobretudo em deixar de fumar, praticar exercício, controlar o peso e o colesterol, hoje é necessário olhar para um conjunto muito mais amplo de fatores.

    Uma doença que começa muito antes do enfarte

    Para Carlos Morais, a prevenção cardiovascular deixou de poder ser encarada apenas como uma responsabilidade individual.

    As alterações climáticas, a poluição atmosférica, as temperaturas extremas, as condições socioeconómicas, a pobreza, a saúde mental e a obesidade fazem atualmente parte do conjunto de fatores que podem contribuir para o risco cardiovascular.

    Esta nova abordagem implica, segundo o especialista, uma visão mais abrangente da saúde, com rastreios precoces, acompanhamento personalizado, telemedicina, inteligência artificial e intervenções junto das comunidades e dos decisores políticos.

    Um dos exemplos apontados na entrevista é o colesterol. Carlos Morais refere que cerca de 68,5% dos portugueses apresentam níveis de colesterol superiores a 190, um dado que, segundo o especialista, mostra a dimensão do trabalho que ainda existe pela frente na prevenção.

    A dieta mediterrânica enfrenta novos hábitos

    Portugal tem uma tradição alimentar associada à dieta mediterrânica, reconhecida pelo seu papel na prevenção cardiovascular. Mas os hábitos alimentares têm vindo a mudar, sobretudo nos grandes centros urbanos.

    O aumento do consumo de alimentos processados, refeições pré-preparadas, fast food, refrigerantes, açúcares e doces preocupa o especialista.

    A conveniência proporcionada pelos supermercados e pelas plataformas de entrega de refeições pode, na sua perspetiva, afastar os consumidores de uma alimentação baseada em alimentos frescos e numa maior atenção à qualidade e à sazonalidade dos produtos.

    A alimentação é, assim, mais uma peça de um problema que Carlos Morais considera cada vez mais complexo.

    Mexer o corpo também é prevenção

    Quando se fala em exercício físico, o especialista deixa uma mensagem simples que passa por não existir uma única modalidade adequada para todos.

    Caminhada rápida, corrida, hidroginástica, yoga ou outras atividades podem contribuir para a saúde cardiovascular, desde que sejam adequadas às condições físicas de cada pessoa.

    Como referência para a população em geral, Carlos Morais aponta para pelo menos três sessões semanais de 45 a 50 minutos de marcha a um ritmo relativamente rápido, em terreno plano e com calçado confortável.

    Mais importante do que estabelecer um limite universal, defende, é conhecer os próprios limites e adaptar a atividade física à condição individual.

    Stress e sono entram na equação

    Há ainda dois fatores que, segundo Carlos Morais, têm recebido uma atenção crescente: o stress e a qualidade do sono.

    Ambientes persistentemente stressantes (sejam profissionais, sociais ou relacionados com outros estímulos do quotidiano) estão associados a maior risco cardiovascular, explica o especialista.

    O sono também não deve ser avaliado apenas pelo número de horas dormidas. A qualidade e a capacidade de proporcionar uma verdadeira recuperação são fundamentais.

    Neste contexto, a apneia do sono assume particular importância. Trata-se de uma condição que, segundo Carlos Morais, é prevalente em Portugal e pode ter consequências diretas na saúde cardiovascular.

    O coração não é apenas um problema dos homens mais velhos

    A ideia de que as doenças cardiovasculares afetam sobretudo homens e pessoas idosas precisa também de ser relativizada.

    Carlos Morais explica que a doença é mais prevalente nos homens, mas pode assumir maior gravidade nas mulheres, sobretudo em idades mais avançadas.

    Por isso, nenhum dos sexos está protegido e a vigilância deve ser mantida ao longo da vida.

    Entre os sinais que justificam atenção estão o cansaço extremo perante esforços considerados normais, desconforto no peito, palpitações, alterações da frequência cardíaca, tonturas e desmaios.

    Perante estes sintomas, o especialista recomenda procurar avaliação por profissionais de saúde.

    Jovens também estão em risco

    Outro dos alertas deixados na entrevista diz respeito aos mais jovens.

    O aumento de fatores de risco como o tabagismo, o excesso de peso e a obesidade infantil contribui para que os problemas cardiovasculares possam surgir em idades cada vez mais precoces.

    Ao mesmo tempo, Carlos Morais admite que uma maior capacidade de diagnóstico também permite identificar atualmente situações de risco que, no passado, poderiam passar despercebidas.

    A prevenção, por isso, deve começar cedo e não apenas quando surgem os primeiros sintomas.

    Depois de um enfarte ou AVC, o risco não desaparece

    Uma das mensagens mais importantes deixadas pelo especialista no Dia Mundial do Coração dirige-se a quem já sofreu um evento cardiovascular.

    Mesmo depois de um enfarte ou de um AVC e de uma recuperação aparentemente bem-sucedida, o risco de um novo episódio permanece elevado.

    Carlos Morais refere que cerca de um em cada quatro indivíduos que já sofreu um evento cardiovascular poderá ter um novo evento nos dois anos seguintes.

    É neste contexto que ganha importância a chamada prevenção secundária: prevenir um novo enfarte ou AVC em pessoas que já tiveram um episódio.

    Para estes doentes, o controlo dos fatores de risco deve ser particularmente rigoroso. O especialista destaca sobretudo a cessação do tabagismo e o controlo do colesterol LDL, conhecido como o “colesterol mau”.

    Segundo Carlos Morais, enquanto na população em geral os valores de LDL considerados aceitáveis podem situar-se em níveis mais elevados, nos doentes que já sofreram um evento cardiovascular os objetivos são significativamente mais exigentes, podendo ser necessário atingir valores inferiores a 55 mg/dL, de acordo com a avaliação clínica.

    O tratamento pode implicar medicação prolongada, eventualmente durante toda a vida, além de alterações na alimentação, exercício físico e outros hábitos.

    Uma responsabilidade partilhada

    A principal mensagem deixada por Carlos Morais é que a prevenção cardiovascular está a mudar.

    Já não basta falar apenas de colesterol, tabaco, peso ou exercício. É necessário considerar também o ambiente em que as pessoas vivem, a alimentação disponível, o stress, o sono, as condições económicas e sociais e o acesso a cuidados de saúde.

    Ao mesmo tempo, a chamada literacia em saúde ganha importância: conhecer os fatores de risco, procurar informação em fontes credíveis e manter um acompanhamento regular são ferramentas essenciais para que cada pessoa possa participar ativamente na gestão da sua saúde.

    No Dia Mundial do Coração, o alerta é, por isso, menos sobre o coração como órgão isolado e mais sobre tudo aquilo que o rodeia.