História de Gisèle Pelicot contada na primeira pessoa chega às livrarias portuguesas
Gisèle Pelicot, que foi violada durante anos pelo marido e por mais de 50 homens por ele recrutados, conta pela primeira vez a sua história num livro que chega hoje às livrarias portuguesas.
Gisèle Pelicot, que foi violada durante anos pelo marido e por mais de 50 homens por ele recrutados, conta pela primeira vez a sua história num livro que chega hoje às livrarias portuguesas, com detalhes sobre a sua vida.
“Quero contar a minha história pelas minhas próprias palavras. Com este livro, espero passar uma mensagem de força e coragem a todos os que possam estar a passar por momentos difíceis. Que nunca sintam vergonha”, escreveu Gisèle Pelicot, explicando a decisão de tornar públicas as suas memórias.
Escrito com a jornalista e romancista francesa Judith Perrignon, o livro “Um hino à vida”, editado pela Presença, percorre a infância de Gisèle Pelicot, de 73 anos, o casamento de quase cinco décadas com Dominique, a descoberta, em 2020, de que era drogada e violada pelo marido e por dezenas de homens recrutados na Internet, e o julgamento que, em 2024, levou à condenação de 51 arguidos.
Este número fica aquém do total de suspeitos identificados pela investigação, que apontou para pelo menos 72 homens envolvidos nos abusos entre 2011 e 2020, embora apenas 51, incluindo Dominique, tenham sido formalmente acusados e julgados.
Os abusos foram gravados, gerando cerca de 20 mil fotos e vídeos, apresentados no julgamento, tornando-o um dos casos mais documentados e mais explícitos da justiça francesa.
O relato de Gisèle Pelicot no livro não se cinge aos anos de violência ou ao processo judicial, recuando no tempo até à infância em Indre, França, para recordar a morte da mãe, quando tinha 9 anos, e a vida familiar que construiu depois.
Com este regresso ao passado, Gisèle Pelicot procurou recuperar a existência que tinha antes de se tornar mundialmente conhecida pelo chamado processo de Mazan.
Um dos episódios centrais do livro é o momento em que, a 02 de novembro de 2020, acompanhou o marido à esquadra, depois de este ter sido apanhado a filmar mulheres por baixo das saias num supermercado.
Foi então que um polícia lhe mostrou fotografias e vídeos que documentavam os abusos de que tinha sido vítima.
Gisèle Pelicot escreve que não reconheceu a mulher que via nas imagens, descrevendo-se como “uma boneca de trapos” e acrescentando que o seu “cérebro deixou de funcionar” naquele momento, no gabinete do polícia que lhe mostrou as fotografias.
A expressão voltaria a surgir durante o julgamento, quando Gisèle Pelicot afirmou, perante as imagens em que surgia a ser violada enquanto estava inconsciente, que se sentia “entre o lixo e a boneca”.
A descoberta destas fotografias permitiu perceber que Dominique Pelicot a tinha drogado durante anos com sedativos e ansiolíticos e convidado outros homens a abusarem sexualmente dela enquanto estava inconsciente.
Gisèle confessa que levou muito tempo a conseguir usar a palavra “violação” para descrever o que lhe tinha acontecido.
O livro aborda ainda o choque de descobrir que a realidade que considerava ter vivido durante décadas, incluindo momentos que julgava felizes, coexistia com uma outra realidade de que não tinha conhecimento.
As “datas doíam”, descreve Gisèle Pelicot, ao recordar a leitura dos elementos da investigação e a forma como passou a revisitar mentalmente momentos da sua vida à luz do que entretanto descobrira.
Inicialmente, não queria que o julgamento fosse público, mas acabaria por renunciar ao anonimato e exigir que o processo decorresse de portas abertas, decisão que permitiu a divulgação mundial do caso e que se tornou uma das marcas da sua intervenção pública.
Gisèle explica a sua decisão de recusar o julgamento à porta fechada, como lhe fora proposto pelo tribunal, com o argumento de que “a vergonha tem de mudar de lado”, frase que serve de subtítulo ao livro.
Pelicot revela que não queria ficar “refém do olhar deles” e considera que um julgamento fechado seria um “presente” para os agressores, que estaria a protegê-los, porque “ninguém saberia” o que lhe tinham feito, nenhum jornalista poderia relatar o ocorrido, ninguém poderia confrontar os agressores e nenhuma mulher poderia sentir-se menos só ao ouvir o seu testemunho, pois se aquilo lhe tinha acontecido a ela, certamente já tinha acontecido a outras.
A esse propósito, Pelicot explica a relação entre essa decisão e o contacto que estabeleceu com outras mulheres, uma vez que durante o julgamento recebeu milhares de cartas e mensagens de apoio feminino.
A reconstrução da sua vida pessoal ocupa igualmente um lugar importante na narrativa.
Depois do fim do casamento com Dominique Pelicot, Gisèle conta ter voltado a apaixonar-se, por Jean-Loup, uma relação que descreve como sendo parte importante da sua recuperação.
No final do livro, Gisèle Pelicot revela ainda que pretende visitar Dominique na prisão, apesar dos avisos de pessoas próximas para que não o faça, porque quer confrontá-lo diretamente e obter respostas para perguntas que continuam sem resposta, entre elas se terá abusado da filha, Caroline, e se terá cometido outros crimes.
Gisèle Pelicot escreve que tem de ir ver o ex-marido à prisão, assegurando que não se trata de um ato de bondade ou demonstração de fraqueza, mas uma despedida e uma etapa que considera necessária para a sua recuperação.
A referência à filha é um tema particularmente delicado, já que Caroline Darian, que publicou em 2025 o seu próprio testemunho sobre os crimes do pai, chegou a questionar se também tinha sido drogada e abusada por Dominique.
Estas dúvidas surgiram depois de a polícia ter encontrado no seu computador imagens da filha a dormir, mas Dominique Pelicot negou tê-la violado.
Gisèle termina o livro afirmando que, apesar de tudo o que aconteceu, não perdeu a confiança nas pessoas, e que essa, que era a sua “maior fraqueza”, é hoje a sua “força”.
Dominique Pelicot foi condenado em dezembro de 2024 a 20 anos de prisão, a pena máxima prevista em França para os crimes em causa.
Os restantes 50 arguidos no processo foram igualmente condenados por violação ou outros crimes sexuais, sendo que cerca de outras duas dezenas de homens captados nas gravações não chegaram a ser identificados pelas autoridades.
