IGAS aponta falhas às urgências de Obstetrícia em Setúbal

    A Inspeção-Geral das Atividades em Saúde conclui ainda que o modelo de rotatividade falhou.

    A Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) apontou falhas ao planeamento do serviço de Ginecologia e Obstetrícia da Unidade Local de Saúde da Arrábida e à articulação com outras unidades, concluindo que o modelo de rotatividade falhou.

    Num relatório sobre a organização do tempo de trabalho na urgência de Ginecologia e Obstetrícia da ULS Arrábida, que integra o hospital de São Bernardo, em Setúbal, entre 13 abril a 04 maio 2025, a IGAS concluiu que o serviço apenas funcionou plenamente em dois dias: 29 e 30 de abril.

    Durante o período em análise, a inspeção fala de “instabilidade na construção das escolas de urgência, comprometida por escassez de especialistas”.

    Além disso, diz que esta situação foi “agravada por um modelo regional de rotatividade do serviço de urgência (SU) da Península de Setúbal que falhou na sua missão de garantir um serviço sempre aberto”.

    Como principal causa do insucesso deste modelo, a IGAS aponta a falta de especialistas em Ginecologia e Obstetrícia.

    Em abril de 2025, houve dias em que nenhum serviço de urgência de Ginecologia e Obstetrícia da região esteve em funcionamento, revelando “fragilidades na articulação entre as várias unidades locais de saúde e no planeamento centralizado, limitando a eficácia do modelo”, refere a inspeção.

    Este relatório foi homologado pela ministra da Saúde a 12 de junho de 2026, mas apenas foi divulgado hoje pela IGAS, um dia depois de ter sido conhecido o resultado da auditoria ao planeamento do trabalho para assegurar o serviço de Ginecologia e Obstetrícia da Unidade Local de Saúde Almada-Seixal no mesmo período temporal.

    No relatório relativo à ULS Arrábida, a IGAS fala de uma “predominância clara da procura direta” das urgências de Ginecologia e Obstetrícia, mesmo em contexto de funcionamento condicionado ou encerramento.

    Lembra igualmente que, em todo o período analisado, este serviço de urgência apenas funcionou plenamente em dois dias (29 e 30 de abril), tendo operado apenas com utentes encaminhadas pelo 112/CODU (Centro de Orientação de Doentes Urgentes) durante 13 dias e estado totalmente encerrado por três dias (20, 22 e 23 abril).

    Este funcionamento intermitente e condicionado no acesso ocorreu num contexto em que a equipa técnica e humana manteve a capacidade para o funcionamento em pleno.

    A este respeito, a inspeção-geral aponta a falta de um "documento autorizador" para que o serviço de Ginecologia e Obstetrícia da ULS Arrábida passasse apenas a funcionar na modalidade de referenciação 112/CODU.

    A IGAS refere ainda que as condições de trabalho foram descritas pelos profissionais como desgastantes, “com sinais claros de sobrecarga, cansaço e desmotivação”.

    Os profissionais apontaram igualmente dificuldades na comunicação com utentes estrangeiras em situação de vulnerabilidade social.

    No documento, a IGAS sublinha os casos de “encaminhamento inadequado” de grávidas com menos de 34 semanas e gestação e de “desfechos neonatais adversos”, dizendo que “levantaram sérias preocupações de segurança clínica”.

    Para a IGAS, a manutenção do modelo organizacional de rotatividade representava um risco para a sustentabilidade do serviço e a segurança dos cuidados prestados.

    “Urge implementar medidas estruturais que promovam o recrutamento e fidelização dos profissionais, melhorar a articulação regional e garantir planeamento coerente e eficaz, sob pena de desmobilização das equipas e comprometimento da assistência em Ginecologia e Obstetrícia”, refere.

    O modelo de urgências de Ginecologia e Obstetrícia da Península de Setúbal foi alterado este ano, com a entrada em funcionamento, a 15 de abril, da urgência regional.

    A urgência centralizada passou a funcionar em dois pólos: um no Hospital Garcia de Orta, em Almada, e outro no Hospital de São Bernardo, em Setúbal.